Aprendizados que jamais vi nos livros: trabalho voluntário na África do Sul

Por Helia Lin

Dentro do ônibus rumo a Mamelodi, a 3 horas da capital Johanesburgo na África do Sul, eu via a paisagem mudar de grandes edifícios comerciais, shoppings e táxis para uma imensidão de vieiras secas pelo inverno, passando para a vegetação amarelada da savana. Logo percebi que estava chegando ao interior do país, me aproximava de uma pequena cidade de apenas 40 mil habitantes. Ruas de terra tomadas por barracões de madeira, muito lixo pelas ruas e o esgoto corria a céu aberto. Ali era a cidade que eu ia passar as minhas próximas 4 semanas.

 

Assim que desci do ônibus, vi muitos olhares atentos em minha direção. Logo me dei conta que eu era a única pessoa de pele branca das proximidades. As pessoas me olhavam com estranheza, talvez imaginando o que eu, com rosto oriental estaria fazendo ali. Talvez não estivessem acostumados com visitas na comunidade ou mesmo receber ajuda de alguém de tão longe.

Era o meu primeiro dia no trabalho voluntário em um orfanato. Assim que entrei por aqueles enormes portões, vi um formigueiro de crianças correr em minha direção, a maioria delas com roupas gastas ou maiores do que o tamanho delas, alguns descalços e outros com calçados velhos e furados. Neste momento eu abri os braços e um enorme sorriso.  Fui recebida com o melhor e mais apertado abraço do mundo.
 

Logo começaram as perguntas. Qual era o meu nome, se eu era do Japão, da China ou algum lugar do oriente. Assim que eu falei que eu era do Brasil, uma parte das crianças, 6 ou 7 delas correram em direção a uma pequena casa. O que será que eu falei que assustou elas? Por que aquelas crianças correram para aquela casa?

 

Depois de alguns minutos, aquelas crianças voltaram sorrindo.  Sabe aquele sorriso de que estavam aprontando algo, pois então… um deles escondia algo nas costas enquanto corria de volta ao grupo. Vieram em minha direção e um deles disse:

-Já que você é do Brasil, você poderia nos ensinar a jogar futebol?

Neste exato  momento, ele revela o que tinha escondido nas suas costas, uma bola de futebol feita de papel higiênico.

 

Sim, aquelas crianças estavam tão animadas em descobrir que eu era do Brasil que correram para o banheiro e improvisaram uma bola de futebol feita de papel. Queriam aprender a jogar futebol de todo o jeito. Meu coração derreteu…

 

Neste momento, diante daqueles lindos sorrisos, eu sorri, mas na verdade, por dentro, eu estava sorrindo de nervoso e pensando:

-Meu Deus, eu não entendo nada de futebol, como vou ensinar eles?

 

Eu olhava para aqueles rostinhos tão animados e aquela bola de papel improvisada e pensava:

-Não posso decepcioná-los, não posso dizer que não sei nada de futebol, preciso dar um jeito, me virar.

Respirei fundo, abri um sorriso e disse para a criançada: Para ensinar futebol, primeiro vocês precisam de uma bola de verdade. Amanhã, bem cedo, estejam aqui que vou trazer uma bola para nossa primeira aula. Fui embora com a cabeça a milhão, pensando em mil maneiras de fazer aquela aula acontecer. Perto do meu alojamento, tinha um centro comercial, algumas poucas lojas que passei uma por uma em busca de uma bola de futebol, podia ser velha, nova, rasgada, murcha, eu estava aceitando tudo. 

Volto para o alojamento e procuro no Youtube pelas palavras chave: futebol, recreação, crianças. Assisti mais de 50 vídeos sobre o assunto. Escrevi para meus amigos professores de educação física para que me ajudassem com as atividades. Eu tinha que me virar, dar um jeito, sair da zona de conforto. Depois de uma noite quase sem dormir, incontáveis vídeos assistidos, conversado com muitos amigos, finalmente eu estava ali, eu, as 3 bolas “meio velhas” e “meio murchas” rumo ao orfanato. Assim que as crianças me viram com 3 bolas de futebol nas mãos, parecia final da copa do mundo e a África do Sul tinha sido campeão, tamanha era a alegria e entusiasmo daquelas crianças que pulavam igual pipoca.

 

Logo, organizei uma fila e coloquei em prática o que tinha acabado de aprender.  A vontade de estudar, entender mais de recreação e proporcionar uma aula interessante crescia cada dia mais. O número de alunos em cada aula crescia semanas após semanas, até mesmo as meninas se animaram para jogar futebol quando viram que a professora era uma menina. Consegui mobilizar aquele centro comercial perto do alojamento para arrecadar doações de roupas para os alunos e bolas de todos os esportes.


Foram 4 semanas de muito futebol para as crianças, mas para mim, foram 4 semanas para olhar para dentro de mim mesma e ver que podemos ir além dos nossos limites, superar medos e barreiras que nós mesmos colocamos na nossa frente. Dar-me conta de quantas vezes que preferi ir pelo caminha mais fácil evitando estudar ou aprender algo novo. E até mesmo, as diversas vezes que reclamei por algo tão pequeno perto das dificuldades que aquele povo passava. Aquela bola de papel me fez ver que basta querer para poder fazer tudo aquilo que desejamos. 

Até hoje, aquelas crianças não sabem que eu não entendia nada de futebol, e eu também não contei para elas.

Espero poder voltar lá um dia e contar esta história para eles.

Helia Lin, viajante de volta ao mundo, life coach e empreendedora. Ama tanto viajar que conhece 39 países (347 cidades) e deu a VOLTA ao MUNDO em uma viagem de 11 meses sozinha. Foi durante esta viagem transformadora que fundou o projeto Asas Abertas l Helia Lin e criou diversos cursos, como Programa Empreenda Viajando, Fazer Acontecer e Quero Viajar. Tem como propósito ajudar as pessoas a darem asas aos seus sonhos e a ter uma vida com muito mais propósito e felicidade.

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