De bike por aí: A Espanha e a minha primeira cicloviagem sozinha

Por Aline Os

Fugi de casa a primeira vez aos 3 anos de idade, levada pela minha irmã, um ano mais velha. Escalamos intermináveis 1,50 m de altura do portão que levava para a rua. Ali já estava claro que ficar em presa em casa não era pra mim, precisava ganhar o mundo. Minha mãe viu de longe e, na impossibilidade de escalar a volta, encaramos a bronca e o castigo para entender que deveríamos avisar quando pretendíamos sair e
assim deixá-la supostamente tranquila.
Fui criada livre, nas ruas do interior de São Paulo das décadas de 80 e 90. Aos 13 anos, já viajava para a casa das tias sozinha ou com meus irmãos. Aos 15, ia de Sorocaba para Guarulhos e aos 17, vinha visitar meu pai na “temida” São Paulo. A verdade é que meus pais nunca me falaram que era perigoso viajar, e crescer com esta ideia foi fortalecedor.

 

Aline Os em Madri – De bike por aí

Certa vez, quando tinha 10 anos, meu pai me deu uma revista com uma matéria sobre a Espanha. Enquanto observava as fotos super coloridas, imaginava estar naquele país e foi este presente que fez com que eu crescesse buscando aprender sobre a cultura espanhola e sonhasse em viajar por aquele país.
Aos 27 anos pensei em fazer um intercâmbio ao final da faculdade. Foi então que conheci meu ex-marido, que pediu que eu não viajasse naquele ano pois o romance não resistiria. Apaixonada, eu atendi ao pedido e decidi esperar para que fôssemos juntos, o que nunca aconteceu nos 9 anos em que durou o relacionamento.
É curioso lembrar, mas desde o começo eu só pensava em estar na Espanha – o que faria? quanto tempo ficaria? como me manteria naquele país? não imaginava como responder estas questões. Sabia que existia um chamado, mas que estava incompleto e a indefinição me angustiava. Talvez tenha adiado tanto a minha partida por não ter um objetivo claro.

Em 2015, já divorciada, passei a usar a bicicleta em mais de 90% dos meus deslocamentos. Fosse pelas ruas da cidade de São Paulo à trabalho ou com os amigos por estradas, em viagens curtas ou longas, eu descobri que era possível ir à qualquer lugar com a Brigadeiro, minha bike e companheira de aventuras. Sinto que ao entender
isto repensei meu modo de viajar.

De bike por aí – Aline Os em Valência

No final de 2015 cogitei pela primeira vez conhecer o mundo em cima de uma bicicleta quando conheci o Ricardo, meu ex-namorado. Juntos conhecemos casais e homens que pedalavam pelo mundo, ouvimos relatos, assistimos filmes e lemos livros de diferentes estilos de viajantes, todos com suas bicicletas simples, o que contribuía com a ideia de que era muito fácil viajar de bike. Mas onde estavam as mulheres em suas bicicletas, viajando sozinhas? Fui saber sobre algumas cicloviajantes somente quando já estava com a passagem para a Espanha em mãos, e me surpreendi ao descobrir como estas são poucas: não passam de 10 o número de mulheres que estão pedalando sozinhas ao redor do mundo no exato momento em que você lê meu relato.

 

De bike por aí – Aline Os pelo Mediterrâneo espanhol

Em um período de 7 meses comprei a passagem, terminei o namoro, aprendi um tanto sobre mecânica de bicicleta, emprestei um GPS, tracei rotas, criei uma página no facebook, renovei passaporte, descobri o Warm Showers, desmontei e embalei a Brigadeiro, peguei uma lista de itens e fui. Fui sem fazer mais perguntas. Tinha finalmente encontrado a resposta para o que eu faria na Espanha: eu iria pedalar! O restante eu descobriria durante a viagem.
Em maio de 2017, eu era uma das mulheres que viajavam na companhia exclusiva da própria bicicleta, indo atrás daquelas imagens da revista dos meus 10 anos de idade, e que me levaram a descobrir outras tantas imagens e um novo continente.
Foram 30 dias, 900 km, um caminho: de Madri até Barcelona, passando por Valência e inúmeros povoados, escalando montanhas, observando e me banhando no Mediterrâneo, atravessando um delta, subindo e descendo, deslizando ou empurrando, quase sempre pedalando, dormindo em hostel, albergue, camping, casa de anfitriões,
percebendo a mudança da vegetação, me assustando e acostumando com lebres e cervos saltando à minha frente, sentindo cheiros novos, ouvindo o som do vento nas árvores, encarando chuva e lama, pedalando forte pra fugir de cachorro bravo, convencendo uma senhora raivosa a permitir minha passagem para evitar uma volta com quilômetros extras, “hablando español”, ouvindo os dialetos e me apaixonando mais pela língua e pelo povo espanhol, comendo de cérebro de carneiro até caracoles, pão e jamón, bebendo sangria, caña, vendo o sol se por às 21:30h…

 

De bike por aí – Aline Os na estrada

Passei por plantações intermináveis e me alimentei de laranjas e nêsperas enquanto pedalava sentido cheiro dos figos ou obeservando papoulas. Colhi azeitonas verdes, deitei na relva macia depois de estar exausta. Chorei de raiva, de alegria e de amor. Cantei subindo uma colina para amenizar a dores de tanto tempo pedalando e
tanto peso na bagagem. Descobri a importância de cada item que levava comigo e vi o quanto somos seres que acumulam e consomem desnecessariamente. Em um dos trajetos empurrei a Brigadeiro por um bom tempo: a inclinação, as pedras soltas e o peso não deixavam eu pedalar. Depois de um tempo cheguei ao topo
da colina e, ao olhar para trás, pensei: “se esqueci algo lá embaixo, é melhor que permaneça esquecido”. E isso me ensinou que deveria sempre carregar apenas o essencial comigo. Me livrei de alguns pesos extras. Entendi que se não tinha fome, sede, sono, dor, não existia nada que me impedisse de ir adiante. Encontrei no caminho pessoas que se espantavam e elogiavam minha jornada. A maioria disposta a me ajudar generosamente, já que sabiam que eu não mudaria de ideia e continuaria pedalando. Escolhi ir de trem quando ficou tarde e quando quis conhecer uma cidade por mais tempo.

Quando, no segundo dia de viagem, me avisaram que eu era a primeira mulher brasileira, sozinha e ciclista a concluir o Caminho de Santiago de Uclés (que liga a cidade de Madri até o Monastério da cidade de Uclés), ainda que sem o passaporte de peregrina, entendi que não eram coisas materiais ou souvenirs que eu buscava na viagem. Eu estava em busca do que nunca havia experimentado. Assim descobri que a Espanha jamais caberia naquela revista de anos atrás e que esta seria a primeira de muitas das minhas viagens solo de bike por aí.

De bike por aí – Aline Os em Uclés, Espanha

 

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2 comentários em “De bike por aí: A Espanha e a minha primeira cicloviagem sozinha

  1. Que maravilha ler teu relato! Sou ciclista urbana, vou me mudar para a Espanha e pretendoconhecer o máximo do país de bike. Você foi uma linda inspiração ler tua história ! Muita sorte em 2018 !

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