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Fui almoçar no seu Gabin

por Lívia Aguiar

Hoje é quarta, feijoada. O restaurante tá em obras desde agosto, mas já já acaba, foi o que me disse o próprio Seu Gabin quando me sentei ao lado dele no mesão coletivo, de frente pra rua, claro.

A reforma foi toda feita com o bar e restaurante funcionando.

Cozinha e freezer a todo vapor, todos os dias da semana, de 8h à meia noite adentro — exceto domingo, quando abre só por 12 horas — como fazem desde que abriram em 2005.

A prosa tá boa, mas eu vim almoçar.

No balcão, peço a feijuca, pra comer aqui.

E uma coca com gelimão pra acompanhar.

A coca vem antes e leio a Matilde Campilho citar o Whitman quando ele fala dos amores semieternos.

“The pain is certain one way or another”

A humanidade sofre de um problema sério de comunicação

Isso resolvido, tá feita a paz

Revertida a maldição de Jeová, perdão pela Torre de Babel e por termos sonhado em tocar os deuses.

Ainda bem que depois apareceram religiões com uns onipresentes mais de boas, amorosos, mas o estrago tava feito

e esse ano vou aprender francês

Chegou a feijoada, completa.

Numa travessa, arroz, couve manteiga refogada e farofa de dendê cheia de cebola e alho

E na cumbuca que esconde o próprio tamanho, 500 ml de feijoada fumegante, com todas as partes devidas:

lombo, orelha, linguiça e paio

Arrumo o prato como Marta posiciona a bola no gol:

precisamente

e transbordando

Como primeiro pelas pontas, experimentando cada sabor, equilibrando a pimenta

Depois ataco o bicho, cotovelo direito na mesa e garfo cheio

Dispenso a faca e vou com a mão em cima dos pedaços de porco, mais eficiente em separar os ossinhos e nervos da carne amaciada por horas de cozimento.

O torresmo extra crocante com uma capinha de carne não é o torresmo de barriga de Minas, mas cumpre o papel.

Assim, nessa animalesca empreitada, me entra um futuro candidato a amor semieterno.

“The pain is certain one way or another”

Mais ou menos da minha idade, alto, cabelo castanho, covinha na bochecha direita, atenção meio aqui meio no que tá se passando no celular. Chega na simpatia cumprimentando o Seu Gabin, me acena a cabeça em sinal de reconhecimento, pergunta se ainda tá saindo comida.

Sim, são 4 da tarde, a cozinha do Seu Gabin não pára.

Gatinho, curti.

Desejei que escolhesse sentar na mesa coletiva ao meu lado ou à nossa frente e batesse um papo com Seu Gabin, a deixa perfeita pra começarmos a nos conhecer.

Mas ele sentou na mesa da frente, mais perto da rua, voltado pro que se passa lá fora… não poderia julgá-lo, mas pô.

Qualquer possibilidade de paquera abortou missão segundos depois que ele pediu ao garçom um omelete

vegetariano.

“The pain is certain one way or another”

Não acabou por mim, que até já fui vegetariana

Mas por ele, que se virou pra pedir o prato e me flagrou devorando

lombo, orelha, linguiça, paio, torresmo crocante

com a cara de quem está guardando uma notícia boa que ainda é segredo

que no caso é a feijoada, acessível a todos os não-vegetarianos que passarem pela Aimberê com Alfonso Bovero, proximamente com azulejos novos, mas a mesma comida farta, saborosa e acolhedora que me atrai quando falta calor humano em casa.

Texto publicado originalmente no Medium.

Acompanhe as andanças da Lívia no seu blog Eu sou à toa. Já falamos dela por aqui, lembra? Sobre sua participação no livro Queria ter ficado mais.


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