Gracinhas

Conversamos a noite inteira. Na verdade, a semana inteira. Tem que ter paciência quando a paquera é internacional – é ainda mais difícil dizer se o cara está sendo legal ou realmente demonstrando interesse. Mas naquele dia, em que todos foram para o bar e ficamos nós dois conversando na pracinha em frente, acho que ficou claro pra qualquer nacionalidade. A galera já tinha voltado para o hotel, e nada tinha acontecido ainda. Resolvemos caminhar pela cidade, calma e segura a qualquer hora da madrugada (já eram mais de três da manhã). Achamos uma pracinha (com uma estátua enorme do ex-presidente, Aliev), sentamos num banquinho, e finalmente paramos de conversa. Ok, a empolgação estava um pouco acima do esperado para um espaço público, mas ainda assim, vocês não imaginam meu susto quando entreabro os olhos e tem um policial postado exatamente na nossa frente, encarando a situação há não sei quanto tempo. Ele não diz nada, nós pedimos desculpas, e tomamos o rumo do hotel. No meio do caminho, ainda rindo do que tinha acontecido, ele me puxa para mais um beijo (que ok de novo, não foi só um selinho), quando uma viatura de polícia pára hollywoodianamente na nossa frente. Descem dois policiais emburrados, olhando feio pra gente, “passport, please”. Explicamos que os passaportes estavam no hotel, que já estávamos indo pra lá, que não ia acontecer de novo, por favor deixa a gente ir. Mais uma vez seguimos rindo do acontecido, dessa vez sem nenhuma parada para gracinhas impróprias no caminho.

estória por Isadora Bertolini
em Baku, Azerbaijão, julho de 2013

Publicado originalmente em Narradores Viajantes.

Isadora Bertolini Labrada

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