Já me ressenti de ser mulher

Por Paula Carvalho

Já me ressenti de ser mulher. Muito. Na minha cabeça, se eu tivesse nascido homem, teria mais liberdade para viajar sozinha sem sentir medo ou ter que responder perguntas incômodas de estranhos e conhecidos. Falando assim, passa a impressão que deixei de viajar por ser mulher. Muito pelo contrário. Sempre que dá eu viajo, sozinha ou acompanhada.

As andanças começaram quando eu era criança, pois meus pais sempre gostaram de viajar também. Com amigos, fiz o percurso São Paulo-Buenos Aires-Montevidéu de carro. Fiz mochilão de três meses pela Ásia com um amigo. Já fiquei um tempo sozinha em capitais da Europa e da Ásia. E mesmo assim, eu me ressentia por não ser homem.

oeste da China, província de Xinjiang

É engraçado como uma determinada forma de pensar entra na nossa cabeça sem a gente perceber e acaba dominando a nossa visão de mundo. De alguma forma, eu mesma coloquei essas restrições na minha cabeça. Pois, sabe, vendo os fatos, eu nunca deixei de viajar ou de ir para os lugares pelo fato de ser mulher. A opressão estava dentro da minha própria cabeça e, ainda que eu tivesse viajado para tantos lugares, não conseguia ver que quem me limitava era eu mesma. Claro que essa opressão não surgiu do nada. Eu acabei incorporando o discurso que destaca só os perigos de uma mulher viajando.

Com o tempo, fui percebendo que pensar isso era a maior furada. Ser mulher também me dava vantagens, e que não havia problema em me aproveitar delas. Por exemplo, em países muçulmanos, o fato de ser uma mulher estrangeira, não muçulmana, me dava acesso tanto ao mundo masculino quanto ao mundo feminino desses lugares. Ou então, eu conseguia perceber com mais facilidade as diferenças sociais entre homens e mulheres em outras culturas, algo que dificilmente veria se fosse homem.

Claro que não é a mesma coisa que um homem viajando. Tomo várias precauções que um homem não precisa se preocupar, como não andar sozinha na rua depois de um determinado horário. E também eu posso ser assediada tanto em São Paulo quanto em Kuala Lumpur, na Malásia. É um medo que nos acompanha em qualquer lugar, não só em viagens, e temos que aprender a lidar com isso desde cedo. Mas isso não impede que eu vá para os lugares onde quero ir. Foi muito importante desconstruir essas ideias para me libertar desse ressentimento e não deixar o medo definir as minhas escolhas.

 

Petra, na Jordânia

 

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