Mulheres Viajantes: Mulheres que viajam sozinhas ~ Eliani Hypolito

Quando se vai em busca do desconhecido, aquilo que é conhecido se faz cada vez mais necessário, como o lugar da segurança. Acho que é por isso que se fala tanto do processo de auto conhecimento nas viagens, especialmente nas que se faz sozinha.

Pois bem, eu embarquei para Dublin, nessa aventura de contato com o outro e comigo mesma, não sozinha, mas com uma parceira de vida e de várias experiências anteriores, que me trazia uma certa segurança. Até então jamais me passaria pela cabeça partir para um país desconhecido sozinha. Partir com uma companhia já me parecia ousado demais (que bom que a gente muda!), embora para a maioria das pessoas estivéssemos sozinhas, pois éramos duas mulheres indo atrás do mundo, e isso poderia ser muito perigoso!

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A aventura que era para durar 1 mês e meio se tornou 9 meses. Quando cheguei, fui para uma espécie de república da escola onde iria estudar, uma casa onde viviam 18 pessoas, de países e culturas completamente diferentes. Foi lá que conheci as pessoas que mais marcaram o meu intercâmbio, e que não mais deixaram eu me sentir sozinha. Lá, logo no primeiro dia me convidaram para ir a um forró (sim, forró na Irlanda!) Ali fizemos almoços tradicionais de cada país aos domingos, com comida italiana, japonesa, coreana, indiana Nós, brasileiros, fizemos uma deliciosa feijoada, e eu aprendi com os italianos que a vida nunca mais é a mesma depois que se aprende a fazer um macarrão à carbonara. Ali a gente alugava carro para ir a lugares mais distantes, ali passei o Natal mais divertido de todos. Ali a gente jogava war de madrugada, e ali tinha um polonês meio maluco, com quem passei algumas experiências desagradáveis, e que me fez procurar um outro lugar para viver, pois me senti ameaçada, e os administradores da casa preferiram mantê-lo ali ameaçando a pessoas que me eram caras. Isso fez com que procurássemos outra casa.

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Ali eu achei também uma amiga, que assim seguiria depois, e que mudaria todos os planos. Ela trabalhava de au-pair, e precisava de alguém que topasse dividir o trabalho com ela pra que pudesse voltar a estudar. Quando fui conhecer a família, e as duas crianças, um lindo menino de 2 anos e uma bebê de 11 meses,  decidi que ali eu ainda poderia viver muitas coisas. Os planos eram ir pra Londres, pra Paris e voltar para o Brasil. Após a viagem foi pra lá que eu voltei, e com as crianças estabeleci os vínculos mais doces que poderia imaginar, além de ter sido o mais eficaz meio de melhorar o meu inglês: através de desenhos animados.

O choque de culturas, a intensidade das experiências vividas, como se o tempo fosse sempre pouco para se experienciar tudo e, principalmente a segurança ao andar na rua foram fatores que me fizeram não querer voltar. Essa segurança era como cidadã e como mulher. Me enchia de orgulho ver que as mulheres usavam as roupas que queriam (embora eu achasse um pouco estranho algumas com saias curtas em um frio de -4 graus, mas ninguém tem nada com isso) e ninguém as julgava por isso, não precisávamos aguentar cantadas e piadinhas idiotas pelo simples fato de sermos mulheres, e poderíamos voltar pra casa em segurança a hora que quiséssemos. Acho que esse sim é o sonho de todas nós mulheres, que infelizmente em alguns lugares ainda está muito longe de se tornar realidade.

Nesse contexto, partimos para Londres, de ônibus e um boat para cruzar o canal. Esse meio foi sugestão de um amigo, e a experiência da ida foi incrível, parecia que estávamos no Titanic, e em breve eu realizaria um dos meus sonhos que era conhecer Paris. Mas o caminho entre Londres e Paris nos deu a melhor história da viagem. Partimos da rodoviária, comendo um sanduíche de presunto. Ali eu comecei a buscar o “glamour”de chegar em Paris. Quando estávamos no boat que cruzaria o Canal da Mancha, havia algumas pessoas estranhas, e nós percebemos uma movimentação estranha da tripulação. Até ali o meu inglês não estava tão afiada, e nós percebíamos que algo bem estranho estava acontecendo e não sabíamos o que era. Essa sensação foi angustiante. Então fomos chamados para nos apresentar no boat, e descobrimos que alguém da balsa tinha cometido suicídio e se jogado no canal. A travessia que deveria ter durado uma hora e meia durou aproximadamente 5 horas, com o boat andando em círculos aguardando a liberação da guarda costeira. Quando finalmente chegamos, eu estava esgotada, e a primeira tarde em Paris foi apenas para descansar.

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Tanto Paris quanto Londres são cidades incríveis, que respiram história, e ali eu vivi dias incríveis. Mas eu sentia saudades de Dublin, das pessoas de lá, mais até do que do Brasil, e ali eu sentia que deveria estar. A volta foi como ter voltado para casa. Era assim que eu me sentia ali. Principalmente, porque eu sabia que poderia sair, conhecer outros lugares e voltar a qualquer momento. O mais difícil era escolher para onde ir. A primeira escolha foi a Itália. Fui encontrar uma amiga brasileira que estava em Florença. Foi a minha primeira viagem de avião sozinha. Foi um misto de orgulho e medo. Desembarquei em Roma, e peguei um trem para Florença. Tudo certo, ali eu percebi que sim, que era possível viajar sozinha e que isso poderia ser tão bom quanto estar acompanhada.

Foi quando comecei a planejar a próxima viagem e a experiência mais incrível que vivi. Sempre tive um interesse muito particular pela Segunda Guerra Mundial, e conhecer a Polônia e o maior campo de concentração que existiu sempre foi uma vontade. E pensei que esse é o melhor tipo de viagem pra se fazer sozinha, para lidar com os próprios pensamentos a respeito de tudo o que se vê e se vive. Foram 10 dias, 2 na Cracóvia, 1 em Praga, 4 em Viena e 4 em Berlim.

Confesso que na Cracóvia eu me senti um pouco amedrontada. Ali parece que as pessoas estavam prontas para brigar o tempo todo. Mas acredito que a história do país explica essa sensação. Ali os resquícios da guerra estão em cada esquina, em cada olhar. Estar em Auschwitz, entrar em uma câmara de gás onde tantas pessoas morreram de forma tão cruel me fez repensar tudo o que já tinha passado até então. Fazer isso sozinha me fez pensar ainda mais nas relações humanas. Nas outras cidades, a sensação era de liberdade, de fazer o que eu queria a hora que eu queria, seja entrar em um museu encontrado no meio do caminho, seja parar para comer ou ir ao banheiro, seja sentar em uma praça e ficar horas olhando as pessoas ao redor. Hoje eu digo que, depois que eu consegui fazer isso tudo sozinha, depois que arrumei um trabalho em um país desconhecido que eu não dominava o idioma, eu posso fazer qualquer coisa, e parece que o mundo e as fronteiras se tornaram muito menores do que pareciam.

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