Mulheres viajantes: Pela liberdade de ir ou estar ~ Emilly Laíse

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Barcelona, Espanha

Para uma família que só conhecia o Brasil, desbravar por além do atlântico não representava só um ato de bravura e coragem, mas de revolução em uma estrutura família. O primeiro intercâmbio, a primeira saída do Brasil… Sozinha indo estudar em Barcelona, na Espanha.

Lembro-me como se fosse hoje, após o primeiro dia de aula ligar para minha amiga no Brasil e chorar feito um bebê dizendo: “O que é que eu estou fazendo aqui? Sou louca?!” Passaram-se 20 (vinte) dias aproximadamente em um misto de tristeza, medo e insegurança. Até que descobri em meio a uma faísca de inspiração que estar sozinha era uma condição inevitável, sentir-me sozinha era variável.

Em uma sexta-feira qualquer, planejei passar o fim de semana em Madri e fui. Utilizei um serviço de carro compartilhado chamado Blá Blá Car e parti. Chegando lá caminhei da estação de trem até o centro da cidade buscado um hostel para ficar e deu tudo muito certo!

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Barcelona, Espanha

Na semana seguinte já estava indo para escola com um caderno cheio de rascunhos sobre qual seria a próxima viagem que faria. Foi assim que planejei um mochilão por Portugal, Itália e Grécia. No quinto dia em Portugal, na cidade de Lisboa, em um hostel muito bom localizado próximo a praça Marquês de Pombal, isso após ter iniciado a viagem em Porto e ficado em Coimbra, tive um surto (psicótico) no quarto do hostel.

Chorava como se não houvesse fim para as lágrimas, sentia uma angústia no peito, soluçava sem parar. Sem entender o que estava acontecendo comigo resolvi ligar para minha amiga aqui no Brasil, para não preocupar minha mãe, e ao falar com ela naquele estado de pânico a mesma disse de forma firme: Deixe tudo ai, pegue todo seu dinheiro e compre um voo agora para Salvador, na Bahia!

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Monserrat, Catalunha

Essas palavras soaram como um choque no meu ouvido! Voltar? Abandonar tudo? Assim sem mais e nem menos?

Consegui raciocinar a gravidade da fala um segundo após essa ordem. Eu estava surtando, surtando por passar tanto tempo sozinha! Logo eu que prego o “nascemos sós morremos sós”?

Como isso era possível?

Por nunca ter ficado tanto tempo sem compartilhar momentos ao lado de alguém. Por ter que escolher os caminhos sozinha, sem ter a opinião de um(a) companheiro(a) de viagem. Se tivesse que perder um trem, um voo era sempre por mim mesma, não havia ninguém para “pôr a culpa”. Se quisesse comer batata frita no lugar de legumes, não havia ninguém disponível para dizer: Emilly, melhor comer legumes, mais leve e melhor para continuarmos a viagem, seu intestino vai agradecer!

Era eu por eu mesma. E não é que no fim das contas foi uma experiência inigualável?

Depois desse surto, meditei ali mesmo sentada na cama do quarto no hostel. Mesmo sem saber o que de fato era meditar. Trabalhei a respiração e alterei a velocidade dos pensamentos.

Resolvi sair do hostel e caminhar por Lisboa.

Depois desse surto, que para mim representou o segundo divisor de águas sobre viajar sozinha (o primeiro foram as 20 dias logo quando cheguei em Barcelona, cheia de medos e preocupações), nada mais me segurava.

De Lisboa fui para Bolsena, Florença, Pisa, Veneza, Roma, Atenas e Santorini.

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Santorini – Grécia

Voltei para minha casa em Barcelona me sentindo a mulher mais poderosa e indestrutível do universo. Ter viajado por todos esses lugares utilizando plataformas de intercâmbio cultural, carros compartilhados, grupos sociais, me alimentando do necessário, carregando uma mochila nas costas, caminhando muito pela maioria dos locais, me proporcionou uma visão muito diferente da qual estava acostumada a vivenciar no Brasil.

Talvez a melhor palavra para descrever essa sensação seja: amadurecimento.

E se depois de uma experiência dessas o “trip vírus” não te pegar, agradeça! Porque eu voltei do primeiro mochilão já imaginando quais seriam os próximos destinos que desbravaria.

Assim, decidi visitar Bruxelas, Amsterdã, Berlim e Dresden em 10 dias, aproveitando a semana santa e o feriado da páscoa.

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Berlim, Alemanha

Sempre organizando as viagens na ponta do lápis e na folha do caderno. Contando com as companhias low cost, trem, caronas pagas e todas as plataformas disponíveis para viabilizar a plena satisfação desse momento de realização pessoal, gastando o mínimo possível e vivenciando da maneira mais autentica cada cidade.

Cada cantinho uma nova experiência registrada no livro da vida, novas amizades, novos sabores e novos olhares.

De presente de aniversário me dei uma viagem para Paris, que só não foi uma das experiências mais cômicas da minha vida (tentando pedir as coisas em francês que eu não falo) porque tenho dois conhecidos franceses que vivem lá e falam perfeitamente inglês, ah! E uma amiga querida de Salvador que na época estava fazendo doutorado em Paris. Inclusive foi por conta dela que comi em um restaurante brasileiro para matar a saudade já a 4 meses longe de casa.

E não parei por ai, todo fim de semana eu ia para alguma cidade próxima a Barcelona como Sitges, Girona, Tarragona, Figueres, Lloret de Mar, Tossa de Mar…

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Sitges, Espanha

Sempre organizando uma mochila com necessidades básicas (água, lanches, livro, toalha, câmera, óculos de sol, fones de ouvido, diário, carregador externo de bateria).

E por ai fui -sozinha- (não deixo de confiar no pai maior e nos meus guias), entrando e saindo de avião, entrando e saindo de carros, ônibus, casas de pessoas do couchsurfing, caronas. Aprendi assim o que significa liberdade, pois possuía um conceito equivocado sobre a mesma. A liberdade de ir e vir, de ser e estar onde você quiser a qualquer hora e sem medo.

Se puder ir, vá e confie sempre em si mesma!

Por Emilly Laíse

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