Mulheres Viajantes: Ser feminino em viagem ~ Karla Silva

 

Minha primeira aventura e desprendimento do medo de estar sozinha foi na Bahia. Adentrei a Chapada Diamantina com uma amiga, sua família era de Seabra. Ela me encorajou a iniciar o que eu já queria há muito tempo e não tinha coragem. Fomos em duas, quando vi já estava sozinha me relacionando com outras pessoas e seguindo viagem para outros destinos prazerosos e quais me proporcionavam mais conhecimento… de Palmeiras e Vale do Capão para Salvador, Arembepe e Recife. Basta uma vez para não mais parar.

Fiz alguns passeios turísticos mas o que mais gostava era saber da história das pessoas e curiosidades e do cotidiano do lugar. Fui aprendendo a viajar, a me desenrolar, ter mais atitude porque precisava me virar, estava mais aberta para conhecer pessoas e logo percebi que estar só era o ápice para a minha liberdade e para a minha criatividade. Sozinha podia controlar o tempo de contemplação das paisagens, dos sons, escrever, cantar alto, desenhar e reorganizar o meu espaço. É muito interessante a observação da solitude em viagens. Você não tem mais os grupos de pessoas que supostamente te dão segurança e que costumam ter a mesma opinião que você, por perto. É mais fácil se enxergar e numa questão de necessidade humana vamos formando outros pares de afinidade. Quando se viaja em grupo estamos automaticamente mais presos à aquele círculo.

Tinha acabado de sair de um relacionamento longo e problemático e o impulso para o novo foi mais intenso, o medo deu lugar a adrenalina e esperança de iniciar outras histórias. Viver em São Paulo já não me animava mais e fui atrás de outra viagem. Mais uma vez a Bahia, dessa vez no litoral sul, na cidade de Itacaré. Fiz toda a programação sozinha, era a primeira vez sozinha desde o roteiro. O mote para este destino foi conhecer a escola alternativa da Comunidade de Piracanga que vi num documentário. A educação não tradicional que almejava exercer na minha profissão adicionada a um cenário de paraíso me mobilizaram a sair de São Paulo.

Fiz as reservas, comprei passagem, escolhi o hostel e o resto deixei pra acontecer. Aprendi que nem tudo precisa ser planejado, muitas coisas interessantes podem acontecer no caminho e modificar o planejamento pra melhor. Lembro de um senhor me perguntar porque estava viajando sozinha e pra mim era tão óbvio que poder fazer todas as escolhas no percurso era a melhor coisa. E me perguntei porque não tinha feito isso antes, era a oportunidade de sair fora da caixinha que querem nos colocar a vida toda. E o mais bacana foi encontrar muitas outras mulheres viajando sozinhas e conhecer outras histórias.

Me apaixonei pela cidade e voltei pela segunda vez com uma amiga que gostou dos relatos e partimos para a parceria. Conheci mulheres mineiras, capixabas, argentinas, cariocas, brasilienses, todas viajando sozinhas e formamos uma família de amigos afins. Muitas histórias e muitas expectativas, não consegui sair dali e fiquei por 7 meses vivendo de várias formas. Trabalhei em restaurante, bar, pousada, recreação infantil e até em figuração de série infanto-juvenil da Disney que gravavam ali. Dancei muito forró, saí em desfile da Independência da Bahia, saí em bloco de carnaval só de mulheres, pisei nas praias mais lindas, vi sóis nascerem e se porem nas linhas do mar azul, vi a apresentação cultural do “Bicho Caçador” no Quilombo Urbano onde morei, assisti festival de dança contemporânea no Centro Cultural Porto de Trás (Centro Cultural do Quilombo), aprendi gíria de surfista, peguei uma onda e fiquei em pé na prancha, conheci música argentina, tomei cachaça de gengibre chamada Netuno e aprendi mais sobre mim. Há uma diferença entre passear e morar na cidade, as rotinas se alteram. Me senti frágil em alguns momentos e muito feliz em outros.

Itacaré é uma cidade extremamente turística, sua economia gira em torno do turismo. Há uma concentração de turistas jovens de várias partes do mundo, restaurantes, bares badalados, pousadas e hostels, várias praias, rio e cachoeiras. Além disso, o surf é um esporte muito praticado devido às excelentes ondas, já teve campeonato internacional de surf. A praia da Concha é mais tranquila, sem ondas, propícia para o stand-up. Na praia do Resende, tem aulas de yoga na grama e gente fazendo slackline. Na praia da Tiririca, muita onda pra surfista e trilha para a praia de Jeribucaçu e por aí vai.

Não consigo mais me ver de um lugar só, nasci em Santos, morei na cidade de São Paulo por 15 anos, passei por vários bairros, vivi com mãe, com pai, com marido, sozinha, com muita gente, com pouca gente, casa grande, casa pequena, na Bahia, com cachorro, com gato, com plantas. Quero um porto seguro pra chamar de lar e muito chão pra pisar pra chamar de mundo. Ser mulher na estrada é muito mais comum do que se imagina, é uma experiência desbravadora.

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