Mulheres viajantes: Viajo porque preciso ~ Bárbara Carneiro

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O agente da imigração me perguntou se eu já era maior de idade e não estava fugindo dos meus pais. Garanti que a idade do passaporte era real e que logo menos estaria de volta para o Brasil. Ele me devolveu o documento me desejando boa viagem. Dois dias depois, entrei num café em Berlim enquanto esperava dar o horário em que o cara que ia me hospedar na sua casa chegasse do trabalho. O dono do café, que eu suponho ser de origem turca, percebeu minha mochila e perguntou se eu viajava sozinha. “Sim”, respondi, recebendo um olhar que interpretei como mais surpresa do que reprovação.

Eu saio por aí sozinha desde que tinha uns dezoito anos e por muitas vezes viajei, como dizem, “sozinha com minhas amigas” (falam isso aqueles que tem uma visão meio tosca de qual deve ser a relação da mulher no espaço público). Acumulei nesses tempos histórias maravilhosas. De quando a gente pegou carona numa estrada no Uruguai, ou quando o dono da pousada nos deu um belo desconto na diária (talvez  imaginando que éramos um casal lésbico que não tinha família para comemorar aquele Dia das Mães). Também teve aquela vez em que passei a noite na casa da amiga de uma amiga em Buenos Aires e corri pro hostel para pegar o café-da-manhã que era meu por direito, e descobri que um cara não entendeu que a minha toalha na cabeceira da cama era meu sinal de posse, e precisei procurar um espaço livre para deitar (sete das oito camas estavam ocupadas pelos homens que compartilhavam quarto comigo).

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Tem esse filme que chama “Viajo porque preciso, volto porque te amo”. Às vezes na muvuca do aeroporto ou no silêncio da rodoviária à uma da manhã, eu me pergunto por que viajar. Por que as horas na estrada, ou o mal-estar do vôo. Eu acho que viajo porque preciso, não sei exatamente o quê. Preciso saber que o mundo não se resume à minha realidade direta, preciso buscar abraços de pessoas que estão longe, e carinho sincero de gente que nunca vi na vida. Aos 13 anos, viajando com a minha mãe, pensei “a maioria das pessoas é boa”. Viajo porque preciso acreditar nisso. Viajo sozinha porque às vezes ninguém pode ir comigo, e às vezes viajo sozinha porque preciso justamente estar só comigo.

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A bem da verdade, não viajo sozinha. Comigo sempre vai um caderno, que serve primeiro de guia (o endereço de onde tenho que chegar, ou a lista do quê tem que ir pra mala), e depois de companhia. Um caderno que me ajuda a organizar pensamentos quando eu vejo caos dentro e fora de mim ou que me ajuda a esboçar poemas  quando não tenho com quem falar. Vivendo numa cidade gigante, viajar é talvez a forma que me dão para me escutar profundamente.

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Agora, se já sei que viajo porque preciso, ainda fica a pergunta do por que volto. Não arrisco muitas respostas. Volto porque não sei largar tudo e ir embora (ainda que às vezes as coisas que deixo quando parto se desprendam de mim e encontrem novas órbitas). Volto porque sinto que aqui é meu lugar e também porque viajar sozinha me leva a paragens ótimas – do mundo, de mim mesma – mas faz com que eu quase me canse profundamente – de mim mesma mais do que do mundo. O que me importa é que saibamos que há mulheres que vão, mesmo sem termos claros os porquês (ou até os quando, ou os para onde).

Acompanhem mais sobre o trabalho da Babi Carneiro em seu blog, The cactus tree.

 

 

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