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Saí do Brasil e estou há três meses morando no Canadá sozinha

Por Natasha de Pina

 

Não achei que fosse ter dificuldade, mas é o terceiro texto que começo e não consigo desenvolver. Contar como tem sido minha experiência de viver sozinha em outro país deveria ser mais fácil. De repente até é. Quero, no entanto, tomar cuidado para não passar a mensagem errada. Não acho justo discursos do tipo “seja uma pessoa de sucesso. Largue tudo e vá morar fora.” Há pessoas que simplesmente não podem tomar essa decisão. Sair do seu país e tentar a vida em outro é algo para privilegiados. E colocar culpa naqueles que, por diversos motivos, não têm como fazê-lo não é justo.

Vamos lá.

Quando me perguntam sobre a mudança de país sempre demoro a responder. Não há uma resposta pronta, objetiva. Muito pelo contrário: a decisão de sair do Brasil foi um processo, não foi tomada de supetão. Cada dia que passa vejo em pequenas coisas, em detalhes, como realmente a mudança foi construída por anos dentro de mim para depois ser exteriorizada e concretizada.

Em termos mais ligeiros, como diriam os nordestinos, eu trabalhava numa empresa há mais de 13 anos e estava muito insatisfeita, muito infeliz. Já não aceitava mais a forma como tratavam os funcionários, já não aguentava mais como os próprios colegas desrespeitavam os outros. O ambiente de trabalho virara tortura. E por causa disso, meu nível de estresse começou a comprometer minha saúde, não somente mental, mas física também. Eu estava ficando doente mesmo.

Por causa da minha formação em letras, sempre senti a necessidade de ter a experiência da imersão. O contato com a língua do outro no dia-a-dia, 24 horas por dia, proporciona um aprendizado sem preço. Era o que sempre quis desde os tempos remotos da faculdade. Aos poucos, fui fazendo um pé-de-meia, fui engolindo alguns sapos até o momento que vi que já tinha chegado ao máximo que poderia. Foram anos de pensamento e 6 meses da decisão de que viria até a efetiva chegada em solos canadenses. Como falei: foi tudo pensado.

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O cartão-postal de Montreal // Foto: Natasha de Pina

Estou há três meses morando em Montreal, ilha que fica na região do Quebec. Aqui são faladas duas línguas: francês e inglês, paraíso para mim. Minha vida aqui é code switching o tempo inteiro: dou bonjour em um minuto para no outro começar uma conversa em inglês ou falo um simples hi para depois discutir em francês.  

Quando morava fora do centro e tinha que pegar ônibus para ir ao curso, era sempre uma surpresa. Nunca sabia se entrava e dizia bonjour ou simplesmente good morning. É claro que raramente acertava e tinha que me corrigir no final com um bonne journée ou um have a nice day. A mesma coisa acontece em cada loja que eu entro aqui. É engraçado como os atendentes me julgam. Tem lugares em que entro que já começam a falar comigo em inglês. Devem ver que não sou daqui (afinal, né, morena bronzeada do jeito que sou, não tenho como ser canadense) e já mandam logo o inglês. Outros me olham, percebem minha latinidade e começam a comunicação em francês. Vai entender.

Trabalho atualmente numa creche 4 vezes por semana. Lindo não, é? Sempre quis um final de semana de 3 dias. Hoje eu tenho. Trabalho com crianças de todos os cantos do mundo. Tem criança da América Latina, tem criança chinesa, tem criança que já rodou o mundo mais do que todos nós multiplicados, tem criancinha com tudo que é tipo de língua materna acontecendo na cabecinha. Meu dia é dar comida, trocar fralda (sempre volto toda cheia de cocô de criança para casa), botar para dormir, brincar, dar bronca, receber e dar muito amor. O dia mais estressante na creche não é nada perto do mais calmo no meu antigo trabalho. Não tem comparação, não troco por nada.

Entende agora o que falei antes da dificuldade de ser falar da minha experiência aqui? Dependendo da forma que coloco, posso ser lida como mais uma “história de sucesso” que só contribui para a frustração coletiva: “brasileira deixa o Brasil e trabalha só 4 dias na semana”. Minha história é bem privilegiada e bem particular. E, como toda história, tem o lado B.

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Família e amigas reunidas em uma foto // Foto: Natasha de Pina

A parte de não estar perto fisicamente dos que amamos. Não é fácil nem simples “deixar” amigos e família. A internet ajuda muito no contato com aqueles que ficaram no Brasil, mas o contato não é o mesmo. Eu já ficava muito sozinha no Rio de Janeiro, cidade onde morava. Mas tinha contato próximo e físico com amigas. Em um dia de chuva e preguiça, era só ir para a casa da mamãe ou da irmã para matar a saudade. Estando longe, o máximo que posso fazer é uma ligação de vídeo. Ajuda, mas está longe de ser o quentinho do colo.

Há também a questão de que sou uma pessoa de fala. Eu falo muito, me comunico muito, tenho necessidade de falar para sobreviver. Aqui, longe de tudo e de todos, seleciono o que tenho para falar. Estranho, mas é verdade. E coisas importantes para mim, pelo simples fato de não estar mais perto geograficamente, são tidas como menores pelas minhas amigas. Quero contar algo grande e elas recebem como algo pequeno. E vice-versa: elas me contam coisas grandes e, para mim, como minha realidade é outra, eu recebo de uma outra forma.

As relações interpessoais com as pessoas que ficaram no Brasil precisam ser readaptadas. E ninguém fala sobre isso. A gente acha que é só se falar de vez em quando. Mas não é. A frequência e forma como esse contato é feito têm que ser diferentes. O outro lado da conversa tem que ser pensado. Não é mais o simples falar e escutar. Tem a questão do tempo do outro, tem a questão da forma como as coisas são colocadas. Cuidados que normalmente são mais automáticos, numa relação à distância têm que ser mais observados.

Essa tem sido uma das coisas que mais tem me feito sentir a solidão. Quando se está em outro país, é como se o peso das coisas mudassem, tanto para um lado quanto para o outro. E se adaptar a isso não é simples.

Sem mencionar a construção de novas amizades. Cheguei numa cidade em que não conhecia ninguém. Aos poucos, a partir do curso que vinha fazendo fui conhecendo pessoas… E como é difícil. Fácil conhecer, fácil sair para tomar umas cervejas, mas difícil aprofundar a relação. Com a idade também, acredito eu, as pessoas estão mais preguiçosas em relação às outras. Acho que se esforçam menos.

E, sendo mulher, não tenho como não comentar, sair com caras aqui é bem diferente. Existem as diferenças culturais, claro, mas a máxima de que “toda brasileira é bunda” está presente também. Sim, a ideia do sexo ardente, de que a mulher está sempre querendo dar, de que é fácil e gostosa, isso tudo é real e se manifesta largamente, seja de forma mais sutil seja de uma forma mais descarada. Já ouvi coisas simples como o cara com quem estava saindo se gabar para outro por ele estar com uma brasileira: “Olha, eu tenho que ir. Ela é brasileira, está com frio. Depois a gente se fala.” [O que a minha nacionalidade tem a ver com o assunto?] E também algo como “você está me dizendo que você, brasileira, não vai transar comigo hoje?” Poderia passar horas e horas falando sobre isso. Ontem mesmo saí com um cara francês de Guadaloupe. Ele fez questão de colocar no youtube clipes de funk para ver/comentar sobre bundas. Bundas brasileiras. É assim que vendemos nossas mulheres para o mundo.  

A verdade é que tem sido incrível a experiência de morar em um país que não é o meu. Mesmo os baixos têm sido importantes para eu valorizar os altos. Sair da caixinha, olhar o mundo através do olhar do outro, isso não tem preço. Mas volto a dizer: essa é a minha experiência. Não é fórmula, não é receita, não é recomendação. Não digo que só se é feliz assim. Muito pelo contrário. Conheço pessoas que, depois que vieram para cá, viram que seu lugar era lá mesmo, no Brasil. Ao sair, perceberam que queriam ficar. Eu estou encontrando meu caminho aqui. Existem tantas outras opções. O legal é estarmos sempre na direção do que queremos, sem ditar aos outros o certo ou o errado. Ser uma pessoa de sucesso é estar de acordo com que se é. Simples assim.  

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Praticando yoga no canal de Lachine em Montreal // Foto: Natasha de Pina

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