Viajar para conhecer e se reconhecer

 

Por Camila López

Durante a infância e adolescência, fiz poucas viagens. Eram férias no sul de Minas Gerais ou no Litoral Norte de São Paulo com a família, algumas poucas idas a outras cidades próximas a minha. Não tive, na época, a chance de explorar muitos lugares, embora me imaginasse em muitos deles – sempre rodeada de outras pessoas, aliás.

Europa Outono Camila López
// Foto por Camila López

Em 2005, ingressei na universidade e me mudei para uma cidade distante de onde vivia. De lá para cá, oportunidades de viagem apareceram. Nessas ocasiões, ou saí acompanhada de alguém ou encontrei conhecidos e conhecidas no destino, o que já serviu para me dar ânimo para planejar passos mais ousados. Então, em 2014, vivi esse “passo”: fui sozinha para outro país. Consegui uma bolsa para fazer o meu estágio de doutorado na França.

Europa Outono Camila López
// Foto por Camila López

Muitas circunstâncias marcaram essa empreitada e me fizeram pensar as escolhas: meu casamento (com um marido que me apoiou muitíssimo), casa, cinco gatos. Foi difícil partir e deixá-los, ainda que por seis meses. Nesse período, além de toda expectativa da viagem em si, precisei me fortalecer diante de julgamentos alheios. Sabe aquelas pessoas que torcem o nariz para mulheres que valorizam seus objetivos e que, sim, percorrem distâncias em busca deles? Eu me deparei com elas. Eu precisei, também, vencer a ansiedade e a falta de confiança em mim mesma para poder presentar a minha existência com essa possibilidade.

Europa Outono Camila López
Por uma rua francesa // Foto por Camila López

Fui para uma cidade do sul da França chamada Montpellier. Eu já havia visitado o país em 2011, quando parti com um grupo e fiquei hospedada na casa de uma família. Mas morar sozinha, lidar com burocracias e com diferenças culturais foi diferente. Uma nova rotina, a descoberta de cada canto novo da cidade, o acréscimo de uma expressão ou palavra nova em francês em meu vocabulário, entre tantas outras experiências, me deu sensações de completude constantes. Eu estava ali para ser quem eu queria ser e fazer o que eu queria fazer: pesquisar, aprender e, também, para entender o que de fato eu era capaz de construir, toute seule, naquela realidade.

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Por uma rua francesa // Foto por Camila López

Sim, eu tive medo muitas vezes, dos mais sérios aos mais banais. Medo da relação com pessoas de culturas diversas, de não completar os meus prazos e resultados da pesquisa, medo da bolsa não cair, de perder documentos, receio de andar sozinha à noite… Aos poucos, fui vencendo um a um. Em Montpellier, eu morei em um studio no centro da cidade, – Place de la Comédie, o seu coração, – o que me fez trocar o silêncio e a familiaridade da cidade do interior onde vivo por rostos que, diariamente, davam lugar a outros rostos; um desafio que me fez perceber que consigo me adaptar quando estou fora da zona de conforto. Eu falei e ouvi a língua francesa o tempo todo, o que me deu a certeza de meu domínio sobre ela, mas, também, a maravilhosa chance de conhecê-la ainda mais. Eu ganhei novos lugares favoritos: um pub quase na esquina de casa, uma livraria para visitar depois das horas de trabalho na universidade, as margens do rio Lez, com seu simpático cisne … E, como bônus do universo, tive como vizinha a ópera da cidade. De dentro de casa, eu ouvia a orquestra ensaiando. Pude eleger o outono como minha estação do ano favorita, percebendo as mudanças da natureza nas voltas para casa ao final da tarde.

Europa Outono Camila López
// Foto por Camila López

Mesmo bastante satisfeita, eu decidi que queria mais. Decidi transpor as fronteiras francesas e conhecer, sozinha, outras cidades de outros países. Apesar das tais ansiedade e insegurança, segui sem companhia, nem de percurso, nem de destino, para duas cidades que não conhecia: Barcelona e Londres.

Europa Outono Camila López
Sagrada Família do Gaudí, em Barcelona // Foto por Camila López

Ainda hoje, consigo me lembrar vivamente daquilo que senti quando peguei um trem de Montpellier para Barcelona. Eu tive receio, mas, logo em seguida, eu me senti corajosa. Naquele momento, estar comigo era o suficiente, era o meu desejo. A paisagem das cidades do Mediterrâneo e o caminho dos Pirineus eram meu pano de fundo. E, nas ruas da terra de Gaudí, nos longos percursos que fiz a pé, eu me senti livre. Senti o sabor da liberdade de ver o que eu queria, de traçar os destinos que mais apreciava e de fotografar com calma o que me chamava a atenção. Eu aprendi, também, que uma mochila era o suficiente para carregar tudo o que precisava, o que, de quebra, me fez constatar que é possível viver sem excessos. Viajar com pouca grana, para mim um antigo sinônimo de precariedade foi, por fim, a porta aberta para a criatividade e o jogo de cintura: achar lugares bons e baratos para comer e se hospedar, explorar os transportes, entre outras coisas, me mostrou que sou mais organizada do que poderia imaginar.

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Um clássico em Londres // Foto por Camila López

Em Londres, a sensação não apenas se repetiu, mas se renovou. Eu estava ali para conhecer uma cidade que sempre quis conhecer, para falar em uma língua que sempre gostei de falar. Eu reforcei aquilo que, para mim, caracteriza uma boa viagem: eu andei mais, eu observei mais, eu aprendi algo novo e eu deixei para trás qualquer sentimento que, nessas andanças, teimasse em insistir que eu não conseguia. E, todas as vezes que fazia o trajeto de volta para a França, sabia que lá encontraria um lugar para chamar de lar.

Europa Outono Camila López
Um clássico londrino: a London Eye // Foto por Camila López

Morei fora só, assim como viajei só, para conhecer, me reconhecer e ter fôlego para, um dia, repetir essa experiência.

Europa Outono Camila López
// Foto por Camila López

 


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