O que você pensa sobre viajar sozinha?

Por Angélica Lourenço

 

Qual o primeiro pensamento que te vem na mente quando você pensa sobre viajar sozinha? Medo? Essa é a resposta de muitas mulheres para essa pergunta e de certa forma essa atitude vai bem mais além do medo da violência física.

 

Por que normalmente tememos estar sozinhas em um outro ambiente? A conclusão pode ser bem mais complexa e variada do que imaginamos, mas um ponto interessante é o papel da nossa criação social nesta visão. Mulheres sofrem diariamente com violência de diversos tipos e isso por si só direciona nossos cuidados e nossas limitações dentro do espaço urbano. Mas além disso tudo, crescemos sendo classificadas e instruídas sobre o nosso lugar na sociedade. Crescemos muitas vezes sem perceber as limitações impostas nas nossas possibilidades de ir e vir. Somos julgadas pelas fragilidades que cercam o “universo feminino” e os perigos que corremos de estar sem acompanhante. É comum por exemplo ser indagada sobre o porquê estar sozinha ou viajando sem alguém ou se não temos medo ou qual a finalidade disso. Existe essa necessidade social de que a mulher não é suficientemente capaz de realizar suas escolhas por si só, pois o mundo é demasiado pesado para sua “delicadeza e vulnerabilidade”. De certa forma, infringir ou cruzar as fronteiras impostas dos papéis já determinados ou estabelecidos para nós é uma afronta ou imprudência irresponsável de nossa parte e por isso também a importância da disseminação da cultura do medo pela mídia.

 

Sabemos que no nosso percurso nem sempre estamos alinhados financeiramente ou em disponibilidade com família e amigos ou mesmo vivendo um relacionamento para que de fato aconteça um planejamento compartilhado. Muitas vezes temos somente o nosso tempo e disposição livres, por isso esperar por companhia pode determinar, em muitas vezes, a suspensão temporária ou indefinida de uma vontade própria. Não se trata de uma vontade de outra pessoa, mas sim a própria e intransferível vontade que somente nós podemos tê-la e realizá-la. Logicamente que dentro de querer e fazer uma viagem se encontram milhões de obstáculos (desde financeiros até a disponibilidade), mas a questão aqui é que se ainda assim existir essa vontade e a oportunidade de fazer a sociedade e a mídia no geral vão estar de dedos cruzados para que não assumamos esse risco e o nosso próprio controle.

 

Apesar de tudo que foi dito, não significa que o medo se dissipa quando colocamos em práticas nossos projetos e desejos. Acredito que o medo permaneça, afinal nascemos e crescemos sendo manipulados e direcionados a desenvolver esse tipo de pensamento. Mas entendo que nossa insegurança de certa forma não nos dominará com tanto vigor e nosso despertar para uma mínima liberdade pode ser desafiadora o bastante para nos fazer ir.

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