Viajar sozinha – quando um tabu virou uma necessidade

Como toda filha única, quando era pequena eu não me cansava de pedir um irmãozinho. Apesar de ter família grande, meus 13 primos moravam em outra cidade e eu tinha que me virar para fazer todos os personagens da brincadeira. Com o tempo eu me acostumei a não ter sempre uma companhia para brincar, mas havia um momento específico em que um irmão nunca deixou de fazer falta: viajando.

 

Tenho a sorte de ter pais que fazem de tudo para poder viajar algumas vezes por ano, para os mais variados lugares, e eu os acompanho desde sempre. Reconheço como foi maravilhoso ter essa oportunidade, mas conhecer o mundo na companhia de ninguém mais do que dois adultos era muitas vezes solitário.

 

A viagem é um momento muito particular. Longe de casa e de tudo o que é familiar, companhia parece ainda mais importante, e tendemos a esquecer que a nossa própria pode ser suficiente. Eu faço de tudo sozinha desde muito nova. A primeira vez que eu fui ao cinema sozinha tinha uns 13 anos. Ainda mais nova eu comecei a andar pelas ruas da minha cidade sozinha, só para passear, porque sim. Nessa época eu descobri que o bairro ao lado do meu era super agradável, que o aquário era meu lugar favorito na cidade, que caminhar na praia sozinha durante a semana era muito melhor do que ir tomar sol nos dias apinhados de turistas. Eu resolvia problemas, caminhava, comia, matava aula. Tudo sozinha, mas viajar sozinha era um tabu que eu carreguei por muitos anos.

Sara Baptista viagem sozinha

Cresci e viajar deixou de ser uma atividade familiar e passou a ser algo que eu fazia com amigos, mas eu ainda acreditava que nunca o faria sozinha, não parecia divertido. Até que eu comecei a perceber que aquilo tudo que eu já fazia sozinha desde pequena, eu não fazia por mera falta de companhia. Aquilo era independência e era empoderador. Consciente do papel que isso teve na minha vida, na minha formação como mulher, comecei a sentir falta de alçar vôos maiores: viajar sem mais ninguém.

 

Quando decidi romper essa barreira eu morava na França, o que facilitou bastante. Planejei 48 dias entre Itália, Inglaterra, Escócia, Irlanda e a própria França e aguardei muito ansiosamente a chegada da data escolhida para começar essa nova aventura: 11/06/2016. Pra completar, fiz quase tudo de couchsurfing. Pesquisei os pontos turísticos e parti, ainda sem todas as passagens compradas e sem certeza de onde eu dormiria todas as noites.

 

Eu não seria justa se eu dissesse que foram só flores. Por vários dias eu me senti solitária, pois tive dificuldades para fazer amigos e foi também desafiador ter que resolver os perrengues – presença garantida em qualquer viagem – sem nenhum apoio. Ressalvas feitas, posso dizer sem sombra de dúvidas que essa foi uma das melhores experiências da minha vida.

 

Ser uma mulher e viajar sozinha é desafiador. Se não por situações concretas de abuso ou assédio, pelo medo de se ver nessas situações e as limitações que nos impomos a fim de não correr riscos. Eu tomei certos cuidados que certamente um homem no meu lugar não teria. Evitei me hospedar na casa de homens, evitei sair à noite sozinha, mantive sempre alguém informado do meu roteiro e com os contatos de todas as pessoas que iriam me receber. Infelizmente, essas coisas ainda são necessárias, mas exigem um esforço muito pequeno frente à preciosidade da nossa segurança e a paz de espírito da minha mãe.

 

Sara Baptista viagem sozinha

Mas voltando ao que é bom, foi libertador ultrapassar mais essa barreira, fazer sozinha uma coisa que eu já fazia acompanhada há muito tempo. Eu saí da minha zona de conforto para aproveitar minha própria companhia em uma atividade que já era extremamente familiar. Viajar exatamente do jeitinho que eu queria, fazendo apenas o que eu queria e na hora que eu queria foi delicioso!

 

Em termos práticos, quando se está conhecendo lugares novos sozinha os dias rendem muito mais, porque não é preciso esperar ninguém nunca, e a viagem fica muito mais livre, porque a mudança de planos depende só de você. Em termos filosóficos, você tem tempo pra refletir, pensar na vida, e se sente livre, independente e capaz.

 

Eu costumo recomendar a todas as mulheres que conheço que tenham essa experiência pelo menos uma vez na vida. Para mim, uma vez foi pouco, já repeti. Viajar só comigo deixou de ser um tabu e se tornou uma necessidade. De tempos em tempos,  minhas asinhas começam a pedir pra bater livres por aí.

Sara Baptista viagem sozinha

 


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