Nunca fui de ter medo da vida, mas era só eu e Barcelona

Eu nunca fui de ter medo da vida. Eu amo viajar, e sempre fui muito independente. Pra ser bem sincera, a ideia de viajar sozinha, em um primeiro momento, não me deixou tão apreensiva assim. Acho que é válido mencionar, antes de mais nada, que a ideia inicial era ir com uma amiga. O plano era infalível: eu já ia estar na Europa por conta de um projeto da faculdade, ela me encontraria direto em Barcelona e depois voltaríamos juntas. Infalível, até o momento em que a chefe dela, feliz ou infelizmente para esta narradora, não aceitou o pedido de férias. Ai, as coisas deram um 180. Era semana de provas, eu não estava em casa.

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A cúpula da Sagrada Família de Gaudí// Foto: Clara Capatto

Contei pra minha mãe por mensagem e ela, já tendo feito suas empreitadas loucas na vida, apoiou a decisão de ir sozinha. Meu pai, por outro lado, não foi tão compreensivo. Eu me lembro exatamente o que ele me disse – ou melhor, gritou – pelo telefone “Você não vai” ele repitia “você vai cancelar a passagem, não vai sozinha de jeito nenhum. A Europa é diferente dos Estados Unidos, você não fala espanhol e não conhece ninguém que mora lá”. Na época, meu primo estava morando sozinho na Itália, e viajando quase todo final de semana. Eu lembro de perguntar pro meu pai “Se ele pode, por quê eu não posso?”.  A resposta? “Ele é um homem de 1,90 e você uma menina de 1,60. É diferente”. É diferente.

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Os vitrais da Sagrada Família // Foto: Clara Capatto

E ele não foi a primeira pessoa a me dizer isso. Muitos me disseram que eu era louca. Outros, que eu era corajosa. Eu acho que fui um pouco dos dois. O tempo foi passando, e a fatídica data ficava cada vez mais próxima. Duas semanas antes do embarque, depois de um mês de muita pesquisa, reservei um apartamento pelo Airbnb de uma mulher na faixa dos 30 anos, que vivia em Barcelona há mais de 7 anos. A ideia era ter alguém conhecido perto para auxiliar, dar dicas e socorrer caso algo acontecesse. Dei uma sorte enorme, ela foi super simpática, me enviou um passo a passo de como ir do aeroporto até o apartamento, qual ticket de transporte comprar, tudo. Se ela não tivesse explicado, acho que não teria dado tão certo.

Cheguei em Barcelona por volta das 21:30 de um sábado. Mudei de terminal, fui até a estação de trem, comprei ticket, peguei o trem, e milagrosamente saí na estação certa (quem me conhece sabe que eu tenho um histórico muito sério de me perder no metrô, portanto acertar a estação por si só foi um feito). Andar até o apartamento foi um pouco mais complicado. Sem internet, eu contava somente com os prints do caminho que eu havia tirado no dia anterior. Uma das primeiras coisas que minha mãe me disse foi “é só não dar pinta de turista”. Era nisso que eu pensava, andando por uma das ruas mais famosas de Barcelona as 22:30 com uma mala que era praticamente da minha altura, usando uma roupa apropriada para o clima finlandês. Fácil.

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Um dos pontos mais emblemáticos do Park Güell// Foto: Clara Capatto

No fim, achei o apartamento sem grandes problemas. Só sei que fui tomar banho e fui direto pra cama. Nota: quando for tomar banho em um banheiro europeu, nunca deixe sua roupa no chão ou seu pijama no banheiro. Eles tendem a alagar. Barcelona 1, Clara 0. No dia seguinte, acordei, me troquei e saí. Sem internet no celular, sem Google Maps, sem ideia de para onde ir. Só uma bolsa praticamente vazia e uma pochete (por insistência de mamãe, ela levava cartões e dinheiro).

O objetivo? Me perder. Fui andando meio sem rumo pelas ruas de Barcelona até que, de algum jeito, fui parar na La Rambla. Para os não íntimos, essa é uma das ruas mais famosas da cidade, perde talvez para a Avenida Diagonal. Nela fica o Mercado da Boquería, uma espécie de Mercado Municipal, onde se compra doces, frutas, verduras, peixe e o mais importante, Jamon Ibérico.

Primeira parada do dia e segunda dica: lá eles vendem sucos de fruta 100% naturais por 1 euro. Sendo a mais ou menos 1km do apartamento, ele virou meu pit-stop diário para aquele suco de morango. O resto do dia seguiu assim, andando sem muito rumo, parando, tirando fotos, olhando mapas. Durante o resto da viagem, a minha rotina era basicamente a mesma. Acordava cedo, turistava, voltava tarde. Os pontos turísticos foram vários, daqueles que você tira de listas do que fazer na internet: bairro gótico, Museu do Picasso, Casa Batló, Sagrada Família, Parque Güell. Fiz 90% dos passeios a pé, usei pouco o transporte público. Menos ainda o celular. Todos os dias antes de sair, entrava no Ggoogle Maps e analisava e anotava todo o caminho. Eu andava com um caderno na mão com todo o trajeto. Isso foi uma dica de uma tia, que já tinha viajado muito antes da Era do celular e Wifi.

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As ruas do Bairro de Barceloneta// Foto: Clara Capatto

Além disso, evitar andar com celular na rua é uma boa prática, não importa o país em que você esteja. Toda noite meus pais exigiam que eu ligasse para eles por skype. Eu mandava fotos, a gente conversava, eles perguntavam o que eu tinha feito e os planos do dia seguinte. Era uma mistura de saudades, curiosidade e principalmente preocupação por parte do meu pai. Acho que o maior desafio que enfrentei como mulher nesta viagem não foi viver sozinha na cidade por uma semana. Foi convencer o meu pai que eu tinha essa capacidade. É claro que é natural pais se preocuparem, mas acho que por ser mulher e estar sozinha a preocupação acaba sendo maior.

A grande vantagem de Barcelona é o fato de que ela é uma cidade extremamente turística. Existem vários pontos de atendimento ao turista espalhados pela cidade, tudo é muito bem sinalizado, e pasmem: em todos os pontos turísticos em que eu passei, encontrei brasileiros pra conversar como uma mãe com a filha pequena, ambas de Brasília, uma carioca que tinha fugido da mãe e sogra por um dia, e quatro paulistanos aposentados tirando férias dos filhos.

Passar sozinha essa semana em Barcelona não me deu mais ou menos medo do que voltar para casa à noite da faculdade todo santo dia. A ansiedade, claro, foi muito maior, mas passou como um passe de mágica quando perguntei a dona do apartamento se o bairro em que ela morava era seguro para andar a noite. A resposta foi simples: “é sim. Mas pera, você não mora em São Paulo?” 

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Barceloneta em festa// Foto: Clara Capatto

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Um comentário em “Nunca fui de ter medo da vida, mas era só eu e Barcelona

  1. Que experiência maravilhosa, me deu vontade de sair agora e comprar uma passagem para Espanha rsrs … Tenho muita vontade de conhecer desde que li “Sombra do Vento”. Parabéns e muito obrigada pela dicas.

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