Mulheres Viajantes: Viajo porque preciso 2 ~ Luciara Ribeiro

Pelo nosso direito de sair do lugar.

 

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Sou Luciara. Nasci em Xique-Xique, uma cidade do interior do estado da Bahia. Aos dois anos de idade tive a minha primeira viagem para fora da cidade. Saí das margens do São Francisco para morar em uma cidade vizinha. Depois aos seis anos de idade veio a minha segunda viagem, uma viagem de três dias de ônibus até os morros de Mauá/SP. Lembro com muito carinho daquela viagem. Recordo-me que ficava olhando com admiração os lugares por onde passávamos, às vezes eram longos matagais e fazendas gigantescas, e depois entrávamos em grandes cidades com suas longas avenidas.

Depois desse dia, eu passei 14 anos de minha vida tendo como única possibilidade de viagem a ida até a casa de alguns dos meus tios e tias. Nada muito longe, todos viviam perto de São Paulo. Cresci limitada. Os meus pais não tinham dinheiro e nem desejo de viajarem com os filhos. Lembro-me que na minha mente, o mundo era reduzido a apenas este caminho. Recordo-me de escutar os amigxs de escola comentarem sobre as viagens que realizavam e depois ficar horas deitada na cama imaginando como seria o dia em que eu conhecesse aqueles lugares. Lembro-me de fazer o mesmo com os filmes que eu assistia, principalmente, quando neles havia viagem de avião.

14625741_1299825363374919_432300408_oEm 2010, depois de viver apenas nas limitações, eu tive a minha primeira saída da zona metropolitana de São Paulo. A viagem foi uma excursão de ônibus com colegas da faculdade para um congresso no Rio de Janeiro. Apesar de ter sido uma viagem de estudos, essa foi também a minha primeira experiência como turista. Em 2012, tive minha primeira viagem de avião, uma viagem como intercâmbio para a Universidade de Salamanca, na Espanha. Eu fui a primeira pessoa da minha família a viajar de avião, e isso pra mim é muito importante. Saber que uma garota que cresceu limitada ao trajeto entre cidades vizinhas, agora estava atravessando o oceano sozinha para conhecer outro país era algo inacreditável para muitas pessoas. Todas as vezes que entro em um avião, eu me lembro daquele dia 02 de fevereiro. Aqueles meses em Salamanca foram mais que um intercâmbio, foi entender mais sobre quem eu sou. A partir de Salamanca a minha vida mudou, e com isso veio também o meu amor por viajar. Percebi que eu poderia viajar sozinha e que isso era maravilhoso! Depois disso vieram muitas viagens. Fiz mochilão pela Europa, visitei algumas capitais brasileiras, voltei em Xique-xique e me re-apaixonei pela minha cidade natal, fui pra Moçambique, E.U.A, México e Uruguay.

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Meu propósito aqui não é autopromover as minhas experiências, ou, dizer que viajar é algo fácil e acessível, pois sabemos que não é. Meu objetivo aqui é reivindicar o nosso direito de não ficarmos estagnados no mesmo lugar. Precisamos de saídas, precisamos de contato com outras culturas para nos conhecer melhor. Viajar é para mim uma das melhores experiências que uma pessoa pode ter na vida. Todo vez que viajo, sinto que algo munda. Percebo que quando viajamos nos tornamos pessoas mais tolerantes, compreensivas, dialogáveis e com senso de coletividade. Passamos a perceber a importância de ouvir mais e falar menos, de que eu sou o outro e o outro sou eu, e, que entendemos mais de nos quando buscamos compreender quem está ao nosso redor. Passamos a conhecer melhor as nossas capacidades e limitações.

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Em uma viagem nem todos os momentos são de certezas e felicidades, há muitas incertezas, angústias, frustrações, raivas e desespero. Procuro aproveitar todas as viagens que faço, mesmo que seja para uma cidade vizinha, nelas sempre ocorrem momentos importantes, alguns mais que outros, mas eu consigo me recordar de muitas coisas que me surpreendeu em dias de viagem. Os dias de viagem me faz voltar à vida do cotidiano refletindo sobre as sensibilidades que uma vida desperta em nós. Eu gostaria de poder viajar mais. Gostaria que todas as pessoas também pudessem. Mas sei que viajar não é uma decisão que se toma apenas pelo desejo, mas, que na sociedade em que vivemos isso exige acima de tudo dinheiro. Eu sonho com o dia em que deixaremos de ter essa barreira chamada capitalismo/dinheiro em nossas vidas e que as fronteiras não nos limitarão. Talvez, para muitos, isso possa parecer uma utopia, mas mesmo assim, eu sigo sonhando e lutando para que esse dia aconteça. Lutemos pelo nosso direito de sair do lugar.

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Por Luciara Ribeiro

2 comentários em “Mulheres Viajantes: Viajo porque preciso 2 ~ Luciara Ribeiro

  1. Não sei porque, mas seu relato honesto me fez lembrar da grande pequenina Cora Coralina.
    Nunca deixe de sonhar, é esse hábito que muda o mundo pelo simples fato de que alguns sonhos se tornam realidade! Seja feliz, seja humana, seja viajante na terra ou nos sonhos!

    Eu sou aquela mulher
    a quem o tempo
    muito ensinou.
    Ensinou a amar a vida.
    Não desistir da luta.
    Recomeçar na derrota.
    Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
    Acreditar nos valores humanos.
    Ser otimista.
    Creio numa força imanente
    que vai ligando a família humana
    numa corrente luminosa
    de fraternidade universal.
    Creio na solidariedade humana.
    Creio na superação dos erros
    e angústias do presente.
    Acredito nos moços.
    Exalto sua confiança,
    generosidade e idealismo.
    Creio nos milagres da ciência
    e na descoberta de uma profilaxia
    futura dos erros e violências do presente.
    Aprendi que mais vale lutar
    Do que recolher dinheiro fácil.
    Antes acreditar do que duvidar.

    OFERTAS DE ANINHA (Aos Moços)
    Cora Coralina

    1. Olá Alice! Muito obrigada por esse lindo presente. Eu não conhecia esse poema da Cora Cora(linda). Fico feliz em saber que há outras mulheres que compartilham do mesmo pensamento e desejo. Sejamos mais humanas sempre. S2 beijos.

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