Mulheres Viajantes: Que nada (nem ninguém) te impeça de viajar ~ Bruna

É incrível como todas as vezes que vejo notícias de violência contra as mulheres, os comentários sempre trazem os mesmos questionamentos: Que roupa ela estava usando? Por que estava sozinha? Estava bêbada? Se isso não fosse suficiente, começam a questionar a educação e criação da família, o tipo de relacionamento que tinha com o marido ou namorado ou a vida sexual da vítima. Praxe.

Apesar disso, é cada vez maior o número de mulheres que estão empacotando suas coisas e caindo no mundo.  é difícil conhecer (não conheço) uma mulher que não tenha receio de viajar sozinha. Relatos de amigas e desconhecidas na internet, que tiveram problemas no hostel ou até mesmo na rua, não são incomuns. Talvez até pudesse ser questão de sorte (ou falta dela), mas infelizmente não acredito que seja o caso.

A primeira vez que viajei sozinha de verdade foi na Europa, um destino que realmente passa uma sensação de segurança. Lá, vários homens de diferentes idades e nacionalidades se aproximaram de mim para tentar uma conversa, dar o número de telefone ou fazer “elogios”. Independente da intenção deles, todos tinham a curiosidade em saber duas coisas: 1) o que eu estava fazendo lá sozinha; 2) e se eu não tinha medo do que poderia acontecer comigo.

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Para ser sincera, tive medo todos os dias. Em plena luz do dia e durante a noite. Conheci alguns caras que me deixaram em uma situação tão desagradável em alguns momentos que me faziam pensar “por que eu achei que poderia fazer isso mesmo?”. Me senti tão mal no dia que um senhor quis me dar o número de telefone e me pagar uma bebida às 2 da tarde em uma rodoviária.

Rejeitei educadamente e saí de perto para ficar próxima dos seguranças, mas não adiantou nada. Ele continuava falando comigo mesmo depois das minhas respostas secas e tentativas de ficar bem longe dele. Eu estava claramente incomodada, o que não fez a mínima diferença para ele. O cara não conseguia parar de falar da fama das latinas. Ele insistiu até a hora que meu ônibus finalmente chegou e pude ir embora.

Essa foi uma situação tão chata para mim que eu senti necessidade de “desabafar” com alguém e resolvi contar ao meu namorado da época. Quando contei o que tinha acontecido, ele logo perguntou: “Mas que roupa você estava?”. E aí quando um cara que está com você e deveria te apoiar nessa situação pergunta que roupa você estava, você percebe como o mundo está de cabeça para baixo mesmo. Só para constar, eu estava de blusa de frio e uma calça jeans. Mas, isso importava mesmo? Aparentemente na sociedade que vivemos, importa sim.

Ingenuamente, eu achava que esses questionamentos surgiam porque uma mulher viajando sozinha causasse certa estranheza, talvez porque as pessoas acreditassem que fosse necessária certa “coragem” para isso, diante de todas as notícias horrorosas, em todos os países do mundo que bombardeiam nossa timeline e noticiários. Diariamente.

Foi só quando viajei com a minha irmã que eu finalmente entendi que essa não era a questão. A mesma pergunta apareceu DIVERSAS vezes: o que vocês estão fazendo aqui sozinhas? Pois é, amigas. Não era “sozinha”, literalmente. Não era sozinha sem uma companhia. Era sozinha sem um homem.

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Foi nesse momento que percebi que não importa quanto a sociedade tenha evoluído, algumas pessoas ainda estão presas a ideias ultrapassadas. Não importa quanto espaço tenhamos ganhado na sociedade, ainda não temos liberdade de fazer o que quisermos. Ainda somos julgadas pela nossa roupa, nossas atitudes e até os nossos destinos.

Acho que passou da hora das pessoas entenderem que independente de estarmos bêbadas ou não, usando uma minissaia ou viajando para um lugar cheio de festas como Cancun ou Las Vegas, NINGUÉM tem o direito de nos tocar, nos fazer mal ou fazer algo contra a nossa vontade.

Já passou da hora de entender, se uma mulher é desrespeitada, violentada, agredida, ela é a vítima. Parem de justificar esses atos absurdos! Ninguém está a “procura” desse tipo de coisa, só porque estava viajando e bebeu umas cervejas ou estava usando determinada roupa. Discurso mais difundido por aí! O triste é perceber que, infelizmente, o mundo ainda está cheio de pessoas com essa cabeça e elas estão por todos os lados. No nosso círculo de amizade, na nossa família, no nosso trabalho, no metrô.

Por isso, mulheres, eu peço para que vocês tenham MUITA curiosidade em conhecer o mundo todo. Sozinhas, juntas. Não importa! Não deixem de conhecer o mundo pelo medo do que possa acontecer, nem que os pensamentos dos outros influenciem o comprimento da sua roupa ou o seu destino de viagem. E que nada (nem ninguém) te impeça de viajar.

Publicado originalmente no Must Share Br.

Reproduzido no Cafezim e Prosa com a autorização da autora

Que nada (nem ninguém) te impeça de viajar

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